08
Janeiro
Jornalista de MT chama de hipócrita discurso de Secretária de Direito Humanos, Maria do Rosário

 

Democracia, liberdade de expressão, verdade, justiça.. Palavras tão comuns aos nossos ouvidos, estão presentes nas revistas, nos jornais, nas novelas, mas principalmente estão abusivamente nos discursos dos políticos de profissão. Tudo em nome da justiça, da paz, da verdade e tudo pelo povo.

Mas e o que é a justiça? O que é a verdade? O que é a liberdade? O que é a democracia?

Foram e são questionamentos que perturbam a minha cabeça e juro que tento encontrar uma resposta coerente e quando penso que encontrei vem algo que me faz perguntar novamente!

Tenho falado demais sobre o assunto Suiá Missu, e quero aqui dizer que prefiro chamar assim do que reserva indígena Marawatsede, até porque alí de reserva tem muito pouco e embora seja assim decretada continuo achando que a terra é de quem vive nela, de quem produz ... Convicções!

Convicções por convicções cada uma tem a sua, e eu como jornalista tenho de ter imparcialidade! Pelos menos muitos dizem ser o equilíbrio da profissão. Fico pensando se eu tenho que ter imparcialidade, imagina então o que teria que ter os nossos juízes, promotores, ministro da justiça e assim por diante. Me choca ao ouvir declarações de pessoas dizendo que ao entregar um pedido ao Ministro da Justiça Ayres Britto a resposta veio rapidamente. “- Vou pegar, mas já adianto, nem vou ler, sou indigenista”, assim me contou um produtor que estava junto com o advogado da Associação dos Produtores da Suiá Missú que acompanhou esse momento lá em Brasília numa certa feita//.

Aí fico eu aqui de longe no interior do nosso Brasil, uma região rica e linda como é o Araguaia vivenciando situação de humilhantes cerceamentos à tantos direitos garantidos por leis criadas para que fossem cumpridas.

Vendo um povo ser massacrado em direto de um outro povo, índios, que também são massacrados.  Me assusta ver uma Secretária dos Direitos Humano dizer: “A nossa gente cuida da nossa gente”.  Realmente secretária Maria do Rosário, a nossa gente cuida da nossa gente! Porque o governo ao que parece cuida dos interesses dele!  E a secretária continuou em seu discurso durante a entrega do prêmio Direitos Humano no Palácio do Itamaraty a dizer que o Brasil incluiu, que o Brasil tirou da extrema pobreza milhares de pessoas, mas a realidade que eu vejo hoje no Araguaia não tem nada haver com o seu discurso secretária.  Um discurso que afirmou: “É direitos humano agirmos juntos pela saúde, pela assistência, pela inclusão na educação, é direitos humano fortalecer os conselhos, para que no Brasil não tenhamos mais o atos de resistência seguidos de morte”, palavras da nossa secretária da presidência da república Maria do Rosário, e disse mais: “Para que tenhamos em cada momento a possibilidade de estarmos ao lado de dom Tomás, ao lado de Leonardo Boff ao lado de Pedro Casadalgila, valorizando a gente brasileira, porque o Brasil que nós trabalhamos e que o governo brasileiro trabalha orientado pela Presidenta Dilma, conjuga, une democracia, direitos humano e paz”, palavras bonitas ditas pela secretária da Dilma e aplaudidas por todos os presentes no evento e até por mim.

Muito bem, bonito na teoria e na pratica?  E o que assistimos diariamente?  Falam de paz e mandam policias fortemente armados, helicópteros, força nacional, polícia rodoviária federal? Falam em democracia e um ministro diz não ler um pedido porque se diz defensor de uma causa? Educação, quando vimos escolas construídas pela força de um povo cair por chão?  União, quando desunem branco do preto, índio do branco e por aí em diante. E as provas sobre o que estou dizendo estão por toda parte na comunhão que existe do povo branco com o povo índio, e se não fosse essa “desunião” causada pelo próprio governo esses problemas eu tenho certeza não existiriam, porque o preconceito é criado de cima para baixo. E por fim direitos humano, o que é o direito?  O que é o humano?

Um ser trabalhador, que acredita em documentos brasileiros? Que tem fé na justiça? Merece então esse mesmo trabalhador ser jogado na rua, ser tratado como bandido, ser transformado em miserável, para atender a vaidade de alguns e os interesses de muitos ou de poucos?

Povo brasileiro, povo do Araguaia, povo do Mato Grosso precisamos levantar a bandeira do basta. A bandeira do dizer que não aceitamos esse tal direitos humano – ou melhor, aceitamos ele na pratica, no sol do dia a dia, nas terras como as povoadas aqui no nosso estado, e por todos os rincões brasileiros onde milhares e milhares ainda passam fome, e aqueles que produzem estão sendo proibidos de trabalhar para a própria sobrevivência e a sobrevivência dos demais. Dizer que não aceitamos esses direitos humano de gravatas que atende uns e outros, porque são mais bem colocados, pessoas que usam da boa vontade da nossa gente brasileira. Não aceitamos os direitos humano da teoria secretária. Queremos ver funcionar, queremos ver os direitos humano para todos.

O Brasil precisa de um banho de realidade e parar de discursos hipócritas como esse que eu ouvi de uma pessoa que eu considerava no mínimo esclarecida! Um discurso no mínimo contraditório com a nossa realidade.

Os direitos humano no Brasil é uma vergonha, porque é constituído de pessoas que ainda acreditam somente em si próprio. Pessoas que se admiram na frente do próprio espelho e trabalham para o bem estar da minoria enganando a maioria.

É revoltante o que vemos todos os dias na televisão, é revoltante quando vemos uma catástrofe no Rio de Janeiro desabrigar mil e quinhentas pessoas como uma avalanche e ver matérias postadas nos mais variados sites do Brasil e nas maiores redes de televisão brasileira como o que aconteceu em Xerem nos últimos dias no Rio de Janeiro onde o cantor Zeca Pagodinho deu um sacode na classe politica brasileira, mas é preciso mais Zeca Pagodinho! É preciso vir para rincões como o Araguaia e ver um desastre ainda maior, uma tortura psicológica feita pela própria justiça, pela própria classe politica e poderosa de nosso país como é o caso da tragédia da Suiá Missu, onde não 1500 pessoas, mas mais de 6 mil pessoas estão desabrigadas por um ato ditatorial do nosso país democrático.

O mundo precisa saber que os direitos humano por aqui não representa nada. Aqui ele não existe!  O mundo precisa saber que o Estatuto da Criança e do Adolescente aqui também não funciona, ele não é aceito pelas autoridades! O mundo precisa saber que o Estatuto do Idoso aqui também não serve de nada!

Ora que pais é esse? Que leis são essas que afagam alguns e esmagam outros? Não podemos nos calar diante de um fato vergonhoso como este que está acontecendo aqui na Suiá Missu no nordeste de Mato Grosso.

Quero aproveitar aqui para compartilhar com vocês, um e-mail que recebi de tantos amigos que fiz esses dias dentro da Suiá Missu trabalhando na cobertura dessa desintrusão covarde. Naves José Bispo escreveu ao Agência da Notícia da seguinte forma, vou deixar na integra: “ABSURDO. EU,QUANDO JOVEM CORAJOSO E IDEALISTA, POR VARIAS VEZES CERREI FILEIRAS JUNTO A COMPANHEIROS ESTUDANTES, ÉRAMOS CRENTES EM UM FUTURO MELHOR, À ÉPOCA VIVÍAMOS SOB A BATUTA DO REGIME MILITAR, FALÁVAMOS EM NOSSAS REUNIÕES SECRETAS, EM DEMOCRACIA, CONSTITUINTE LIVRE SOBERANA, ANISTIA, VERBAS PRA EDUCAÇÃO, E COISAS DO GENERO,  HOJE VEJO QUE LUTEI EM VÃO!  VEJO PESSOAS QUE DEFENDÍAMOS A FRENTE DESTE PROCESSO CRIMINOSO,  DESTE MASSACRE EM NOME DA LEI, DA ORDEM JUDICIAL. VEJO IMPERAR A INTOLERÂNCIA, VEJO OS MÉTODOS DITATORIAIS EM AÇÃO, FORÇA EXCESSIVA, INTOLERANCIA, FRAUDES ACORBERTADAS, SUPRESSÃO DAS LIBERDADES INDIVIDUAIS E DA IMPRENSA LIVRE.  PARABENIZO COM LOUVOR A AGENCIA DA NOTICIA.   CONFRESA ENTRA PRA HISTORIA COMO CIDADE UNICA NO PROCESSO DE LUTA POR LIBERDADE COM UMA IMPRENSA LIVRE, FORTE E COM CORAGEM SUFICIENTE PARA PLANTAR NOVAMENTE A SEMENTE DE LIBERDADE QUE ESTÁ SE ESVAINDO NO TEMPO. É HORA DE REPENSARMOS O PROCESSO E DE ENTEDERMOS QUE O PROBLEMA É DE TODOS.  POSTO DA MATA PODE IR, SERÁ MUITO DOÍDO E TRISTE, MAS VALERÁ A PENA SE BROTAR DALI A CENTELHA DE LUTA POR UMA LIBERDADE QUE TEM DE SER E SERÁ DURADOURA,  TEMOS QUE EXPULSAR A SOMBRA DE TERROR QUE É O TOTALITARISMO, A FALTA DO SAGRADO ESTADO DEMOCRATICO DE DIREITO, PORQUE HOJE JA ESTÁ FARTAMENTE DEMOSTRADO QUE ELE NOS RONDA E AMEAÇA MUITO DE PERTO.  QUERO FALAR EM ESPECIAL A PESSOA DA CAMILA, QUE MESMO APAVORADA ANTE AS BOMBAS DA "NOSSA" POLÍCIA NÃO ESMORECEU, TOMOU BANHO, DEU UM BEIJOU NA FAMÍLIA E VOLTOU MAIS FORTE, TENDO COMO ALIMENTO PRINCIPAL AS CENAS DE INJUSTIÇA, OS DESMANDOS, A CALÚNIA.  ESTA REPORTER ENTENDEU QUE ALGUÉM DEVERIA DIZER A VERDADE , NÃO FRAQUEJOU, FOI E LÁ FEZ, E EU JA DESCRENTE, ME ENVERGONHEI, VOLTEI E VI QUE DEVERIA FAZÊ-LO NOVAMENTE.  PORQUE A LUTA POR LIBERDADE NAO PODE PARAR ENQUANTO EXISTIR UM SÓ IRMAO OPRIMIDO, DEVEMOS BRADAR POR ELE.”,  Naves José Bispo, é médico veterinário e tem propriedades dentro da área de Suiá Missu, para ele essa terra tem muito mais do que valor material, é herança do pai.

São atitudes como a do Naves, palavras como as dele e de tantas outras pessoas que ouvi nesses mais de 30 dias que estou dentro dessa história que entrei de certa forma por acaso, por obra do destino, que me fez mais humana.  Mas como dizia um outro amigo meu, a Suiá Missu também serviu para tirar uma aureola que eu tinha em cima da cabeça, uma inocência de acreditar que as pessoas são boas, ou melhor algumas pessoas não posso aqui generalizar.

Mas quero completar que as pessoas não precisam estar em prédios com ar-condicionado, com gravatas caras e com sapatos bonitos, com celulares e computadores de última geração, ou mesmo numa casa simples num modelo de falsa modéstia e com o poder da caneta da mão para serem boas. Aprendei que na simplicidade mais pura da vida, que dentro da guerra também pode nascer o amor e lindas amizades. Quantos olhares eu presenciei esses dias? Quantas lagrimas vi cair e de tristeza derramei também?  Quantos corações apertados? Quantas mãos calejadas eu vi e apertei? Quantos rostos marcados pelo sol eu vi?  Quantas crianças brincando na sua inocência, com um olhar de medo e de dúvida, mas com a fé de um amanhã melhor eu presenciei.

São cenas que não vou esquecer enquanto eu tiver vida, são cenas que não vou esconder, são palavras que não vou guardar só para mim. Se eu precisava de um ideal, talvez a Suiá Missu me deu um de presente, o ideal de mostrar a verdade nua e crua, doa a quem doer!  O direito de eu ser quem eu sou e o de você ser quem você é, de quem você quer e de quem você deve ser.

A Suiá Missu não vai desaparecer e não vai morrer, vai ficar guardada vamos dizer assim, mas a história da Suiá Missu não termina aqui ela  pode e deve servir de ponto de partida para muitas coisas começarem a ser transformadas, tudo tem que ter um ponto de partida e talvez o gigante que é o silêncio do Araguaia tenha começado a acordar com o barulho da Ditadura vivida hoje na região da Suiá Missu!

 

Camila Nalevaiko - Jornalista em MT

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"“O talento vence jogos, mas só o trabalho em equipe ganha campeonatos.” " - Autor desconhecido!!!
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